sábado, 11 de outubro de 2008

O mito do colapso americano

Na segunda feira, 6 de outubro de 2008, a crise financeira americana
desembarcou na Europa e repercutiu em todo mundo de forma violenta. As
principais Bolsas de Valores do mundo tiveram quedas expressivas, e
governos e bancos centrais tiveram que intervir para manter a liquidez
e o crédito de seus sistemas bancários. Neste momento, não cabem mais
dúvidas: a crise financeira que começou pelo mercado imobiliário de
alto risco dos EUA já se transformou numa crise profunda e global,
destruiu uma quantidade fabulosa de riqueza e deverá atingir de forma
mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a economia real dos EUA
e de todos os países do mundo. Muitos bancos e empresas seguirão
quebrando, nascerão rapidamente novas regras e instituições, e haverá
nos próximos meses uma gigantesca centralização do capital financeiro,
sobretudo nos EUA e na Europa. Os bancos e organismos multinacionais
seguem paralisados e impotentes e se aprofunda, por todo lado, a
tendência à estatização de empresas, à regulação dos mercados e ao
aumento do protecionismo e do nacionalismo econômico. De todos os
pontos de vista, acabou a "era Tatcher/Reagan" e foi para o balaio da
história o "modelo neoliberal" anglo-americano, junto com as idéias
econômicas hegemônicas nos últimos 30 anos. Como contrapartida, mesmo
sem fazer proselitismo explícito, deverá ganhar pontos, nos próximos
meses e anos, em todas as latitudes, o "modelo chinês"
nacional-estatista, centralizante e planejador.

No meio do tiroteio, é difícil de pensar. Talvez por isto,
multiplicam-se, na imprensa e na academia, os adjetivos, as
exclamações e as profecias apocalípticas, anunciando o fim da
supremacia mundial do dólar e do poder global dos EUA, ou do próprio
capitalismo americano. Na mesma hora em que os governos e investidores
de todo mundo estão se refugiando no próprio dólar e nos títulos do
Tesouro americano, apesar de sua baixíssima rentabilidade e apesar de
que o epicentro da crise esteja nos EUA. E, o que é mais interessante,
são os governos dos Estados que estariam ameaçando a supremacia
americana os primeiros a se refugiarem na moeda e nos títulos
americanos. Para explicar este comportamento aparentemente paradoxal,
é preciso deixar de lado as teorias econômicas convencionais sobre o
"padrão-ouro" e o "padrão-dólar", e também as teorias políticas
convencionais sobre as crises e "sucessões hegemônicas" dentro do
sistema mundial.

Comecemos pelo paradoxo da "fuga para o dólar", em resposta à crise do
próprio dólar. Aqui é preciso entender algumas características
específicas e fundamentais do sistema "dólar-flexível". Desde a década
de 1970, os EUA se transformaram no "mercado financeiro do mundo", e o
seu Banco Central (Fed), passou a emitir uma moeda nacional de
circulação internacional, sem base metálica, administrada através das
taxas de juros do próprio Fed e dos títulos emitidos pelo Tesouro
americano, que atuam em todo mundo como lastro do sistema
"dólar-flexível". Por isto, a quase totalidade dos passivos externos
americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações
de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar. Uma
situação única que gera enorme assimetria entre o ajuste externo dos
EUA e dos demais países. Por isto também, a remuneração em dólares dos
passivos externos financeiros americanos que são todos denominados em
dólar seguem de perto a trajetória das taxas de juros determinadas
pela própria política monetária americana, configurando um caso único
em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria
"dívida externa".

Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta
de forma exclusiva no poder político e econômico americano. Agora
mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano
emitirá novos títulos que serão comprados pelos governos e
investidores de todo mundo, como justifica o influente economista
chinês, Yuan Gangming, ao garantir que "é bom para a China investir
muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas
internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos
EUA são interdependentes". (FSP, 24/11).

Mas, além disto, do ponto de vista da hierarquia mundial, se esta
crise for administrada de forma estratégica pelo governo americano,
ela poderá reforçar, ao invés de enfraquecer, a posição futura dos EUA
dentro do sistema mundial. Para entender este segundo paradoxo,
entretanto, é necessário ir um pouco além da economia e das finanças,
e analisar com cuidado a origem e os desdobramentos das crises e da
competição entre os Estados nacionais. Em primeiro lugar, quase todas
as grandes crises do sistema mundial foram provocadas, até hoje, pela
própria potência hegemônica. Em segundo lugar, estas crises são
provocadas quase sempre pela expansão vitoriosa (e não pelo declínio)
das potências capazes de atropelar as regras e instituições que eles
mesmos criaram num momento anterior, e que depois se transformam num
obstáculo no caminho da sua própria expansão. Em terceiro lugar, o
sucesso econômico e a expansão do poder da potência-líder é um
elemento fundamental para o fortalecimento de todos os demais Estados
e economias que se proponham concorrer ou "substituir" a potência
hegemônica. Por isto, finalmente, as crises provocadas pela
"exuberância expansiva" da potência-líder afetam em geral de forma
mais perversa e destrutiva aos "concorrentes" do que ao próprio líder,
que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os
demais.

Resumindo: "apesar da violência desta crise financeira, não deverá
haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do
sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que
ocorra uma fusão financeira cada maior entre a China e os Estados
Unidos".



José Luís Fiori
professor titular do Instituto de Economia da UFRJ.
Artigo publicado no Valor Econômico (08/10)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O preço da coerência

Após o resultado negativo nas urnas para o PSOL, creio que cabem aqui algumas reflexões. Durante esses quatro anos exercemos um mandato que jamais se afastou das propostas pelas quais fomos eleitos pelo PT em 2004. Saímos do PT para continuarmos a cumprir aquilo pelo qual fomos eleitos, que foi o compromisso de lutarmos junto com o povo de Campinas por um município e um país justo para todas e todos. O tempo demonstrou que estávamos certos em nossa decisão, pois, mais tarde, o PT formalizou seu apoio ao Governo Hélio ao qual temos grandes discordâncias. Fomos construir o Partido Socialismo e Liberdade sabendo das dificuldades que enfrentaríamos e os desafios que nos estavam colocados. O PSOL ainda é um projeto em construção. É um novo partido contra a velha política e não um balcão de negócios e, devido a isso, enfrenta e enfrentará dificuldades eleitorais. Nessas eleições, pagamos o preço da coerência, pois com o número de votos que tivemos, teríamos sido eleitos na maioria dos partidos que terão representação na Câmara.

No entanto, temos o sentimento de dever cumprido. Fiscalizamos a atuação do Executivo e o trato com o dinheiro público com todo o rigor que o tema merece. Estivemos ao lado do povo de nossa Campinas em todos os momentos necessários: lutando por médicos, remédios, moradia, transporte público, contra qualquer discriminação, contra a destruição do meio ambiente.

Também enfrentamos nesse processo eleitoral um devastador poder econômico que, certamente, cobrará a fatura na próxima legislatura. Além do assistencialismo e do clientelismo tão praticados pela maioria dos políticos que mantêm nosso povo dependente. Não aceitamos dinheiro de empreiteiras e banqueiros, não prestamos favores em troca de votos e contamos com a militância e a solidariedade das pessoas em nossa campanha. Diferente de muitos partidos, fizemos uma campanha de cabeça erguida sem dever nada a ninguém. Tive 3.188 votos, porém, infelizmente, a Frente de Esquerda de Campinas não alcançou o coeficiente eleitoral para eleger uma representante na Câmara de Vereadores.

O prefeito Hélio teve uma vitória contundente nas urnas, mas, mesmo assim, reafirmamos nossa discordância com o atual projeto instalado na cidade. Neste processo de denúncia, nosso companheiro e candidato a prefeito, Paulo Bufalo, nos honrou muito com coerência e coragem ao apontar os verdadeiros problemas da cidade, sem marqueteiros e sem uma campanha milionária. E também apresentou a Frente de Esquerda como alternativa ao projeto predominante não só em Campinas, mas no Brasil.

Mesmo sem uma cadeira no Legislativo, estaremos nas ruas, de onde nunca nos afastamos e nunca nos afastaremos, denunciando todo e qualquer tipo de injustiça e abuso de poder, porque nossa luta não começou em 2004 e não terminará em 2008. Não vemos a política como carreira e onde houver luta e indignação, lá estaremos contribuindo para a construção de uma sociedade justa e solidária. Sempre que houver um ataque ao povo de Campinas, lá estaremos lutando contra, assim com fizemos nesse mandato.

Assim, agradeço a cada voto depositado na Frente de Esquerda e aproveito para reafirmar: não basta votar, é preciso lutar. Não estaremos na tribuna da Câmara, mas as ruas continuarão a ser ocupadas pela nossa militância levantando as bandeiras dos trabalhadores e construindo uma cidade justa. Se um dia fizermos por merecer e, voltarmos a ocupar a tribuna da Câmara Municipal de Campinas será sem nos afastar um milímetro sequer de nossos ideais e convicções. E isso não quer dizer que não aprenderemos com nossos erros que, certamente, houveram. Para aqueles que se indignam diante de toda e qualquer injustiça convido a se juntarem a nós.


Marcela Moreira

vereadora de Campinas

pelo Partido Socialismo e Liberdade

Contatos: (19) 3385-8339

marcelapsol@gmail.com

www.marcelamoreirapsol.com.br

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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Credo

Composição: Milton Nascimento e Fernando Brant

"Caminhando pela noite de nossa cidade
Acendendo a esperança e apagando a escuridão
Vamos, caminhando pelas ruas de nossa cidade
Viver derramando a juventude pelos corações
Tenha fé no nosso povo que ele resiste
Tenha fé no nosso povo que ele insiste
E acordar novo, forte, alegre, cheio de paixão

Vamos, caminhando de mãos dadas com a alma nova
Viver semeando a liberdade em cada coração
Tenha fé no nosso povo que ele acorda
Tenha fé no nosso povo que ele assusta

Caminhando e vivendo com a alma aberta
Aquecidos pelo sol que vem depois do temporal
Vamos, companheiros pelas ruas de nossa cidade
Cantar semeando um sonho que vai ter de ser real
Caminhemos pela noite com a esperança
Caminhemos pela noite com a juventude"

Blindagem do Brasil à crise externa é de ‘papel crepom’

Correio da Cidadania

A gravidade da crise econômica mundial, originada na débâcle do mercado de hipotecas subprime dos Estados Unidos, parece realmente não mais se constituir uma surpresa ou novidade a nenhum leigo. Assim como também não é desconhecida a possibilidade de ainda estarmos frente somente a uma ponta do iceberg, qual seja, pode haver mais catástrofes à vista.

Quanto às repercussões na economia brasileira, a dúvida é, no entanto, o que predomina entre os cidadãos que acompanham atônitos a maior depressão desde a crise de 1929. A despeito das enormes descidas morro abaixo da Bolsa de Valores de São Paulo, deparam-se esses cidadãos com estatísticas muito favoráveis relativamente ao crescimento da economia e da renda, à diminuição do desemprego, dando conta estas estatísticas até mesmo de um incremento da classe média no país, a qual teria tomado o lugar da pobreza.

Nossas reservas externas seriam, ademais, grandes o suficiente para reforçar os nossos sólidos fundamentos econômicos e garantir a estes trópicos um bom lugar na travessia da tormenta.

Não é, infelizmente, esta otimista noção quanto à crise mundial e suas repercussões internas que transparece da aguçada análise que o economista e professor da UFRJ, Reinaldo Gonçalves, teceu a este Correio.

Confira abaixo a entrevista completa.

Correio da Cidadania: A crise atual da economia americana tem colocado vários teóricos e estudiosos diante do seguinte dilema: o capitalismo vive uma crise estrutural profunda? Qual o teor e profundidade dessa crise a seu ver, especialmente quando sabemos que os ativos financeiros são cerca de 4 vezes superiores ao PIB mundial na atualidade?

Reinaldo Gonçalves: Essa crise é particularmente séria por ter três dimensões: a principal é a financeira, com essa crise sistêmica dos EUA. Há também um transbordamento para o lado real da economia, ou seja, uma desacelaração forte do investimento, da geração de renda e do emprego. Já o terceiro aspecto, é que ela tem ocorrido em um momento de aceleração inflacionária não desprezível na economia mundial. Há, portanto, três vetores: o financeiro, o real e um último relativo aos preços.

É uma crise diferente desde que conheço o capitalismo, nada comparável à crise de 29, que teve origem em problemas no lado real da economia, quando havia muito investimento, muita capacidade produtiva; os investimentos se reduziram, o emprego e a renda também e, depois, como conseqüência de o lado real não andar bem, o lado financeiro explodiu. Nesse momento não há nenhuma pressão de empresas na economia dos EUA e nem na mundial.

Essa crise, do ponto de vista da sua natureza, é mais séria e abrangente do que as outras.

CC: Os EUA vão manter sua hegemonia mundial após essa crise? Segundo a economista Maria da Conceição Tavares, se não resolverem tudo antes das eleições, perderão a hegemonia, já que não têm mais reservas, que estão com a China, mas somente dívidas.

RG: Creio que essa crise não abala a hegemonia norte-americana, pois ela é variada. Tem uma vertente claramente cultural, outra militar (muito expressiva), outra tecnológica (também muito importante) e finalmente uma força monetária e financeira enorme. A moeda chave do sistema monetário internacional é o dólar, que responde por mais de 70% das operações do sistema financeiro.

Dessa forma, o sistema financeiro americano é o pilar do sistema financeiro internacional. E esse sistema depende em grande medida do próprio envolvido, da esfera financeira norte-americana.

No caso da China, a maior parte das reservas em dólar é de títulos privados associados ao mercado norte-americano. À medida que o risco mundial aumenta, a tendência é que se corra para os EUA e para seu tesouro. Portanto, não vejo nenhuma razão para imaginar que, num horizonte previsível de 10, 15 anos, haverá uma troca de hegemonia, pois na verdade ela se dá em múltiplas frentes.

CC: Qual a sua opinião sobre as intervenções estatizantes que o governo americano tem feito para lidar com a crise que se originou nas hipotecas subprime e também sobre esse novo pacote, inicialmente de 700 bilhões de dólares, que está patinando no Congresso? Terão alguma efetividade?

RG: Certamente sou a favor do pacote, que tenta travar uma crise financeira que abrange todo o mundo. Se a crise se restringisse só aos EUA, seria problema deles, neste caso poderíamos torcer contra. Mas o fato central é o transbordamento. Os EUA não são o Brasil. Se a crise acontecesse aqui, não teria importância em nenhum canto do mundo, mas está se sucedendo nos EUA e tem repercussão internacional.

Acho que essas medidas são corretas. O governo Bush tentou primeiro aumentar a liquidez do sistema financeiro, depois mexeu com a taxa de juros, e ainda houve as operações de resgate, estatizando aquelas empresas de crédito imobiliário e seguros, como a Fannie Mae e a Freddie Mac. Quanto ao pacote, tem o sentido de gerar recursos às empresas e bancos de investimento que se envolveram em toda essa crise e eventualmente estabilizá-los. O problema é saber se essas novas medidas vão destravar ou não o sistema, já que são uma nova tentativa do governo americano.

700 bilhões de dólares, ademais, não é muito dinheiro, correspondem a 6% do PIB americano. Lembremos que o Lula no Brasil todo ano gasta mais de 10% do nosso PIB com juros. Portanto, 6% do PIB americano é pouco dinheiro, é provável que tenham até de aumentar a quantidade de recursos a curto prazo. A questão central é, portanto, a sociedade americana querer controlar o Executivo no uso desses recursos públicos.

CC: Pelas repercussões que essa crise pode ter, não se trata, portanto, de punir os culpados, mas de salvar os inocentes.

RG: Acho que o tema central deste pacote, que certamente será aprovado, é a punibilidade. Numa democracia como a americana, mesmo com todos os seus problemas, as instituições são robustas de acordo com os padrões internacionais. Há duas questões em jogo: um contrapeso ao Executivo, de um lado, e essa punibilidade, de outro.

Dada a existência de fatores como informações privilegiadas, burocracia administrativa, corrupção e fraudes, nas sociedades avançadas, como a dos EUA, há uma preocupação em punir os responsáveis. O que houve é que o projeto do Bush não estava muito claro a respeito dessa punição. Esse imbróglio passa, deste modo, pela falta de um acordo em torno de dois pontos citados: a punibilidade e o controle do capital sobre recursos públicos, o que mostra a força da sociedade.

No Brasil, um governador, meia dúzia de senadores e deputados, que mais funcionam como despachantes, atravessam os corredores de Brasília, vão à sala da presidência, passam a fatura e assim são liberados bilhões de reais, como ocorreu no Proer (programa de salvamento de bancos no governo FHC) e como acontece nas renegociações de dívidas de grandes empresas, reproduzindo o expediente de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos.

Para sorte do mundo, a sociedade americana é uma sociedade robusta e a morosidade, ao final das contas, tem algo de positivo, podendo levar a um acordo mais eficaz.

CC: Quanto à saúde da economia brasileira, muito se aventa a noção de nossos sólidos fundamentos econômicos, o que nos garantiria um lugar seguro pra atravessar a tormenta. Teríamos 200 bilhões de dólares em reservas externas, um bom colchão, mas ao mesmo tempo é sabido que os capitais especulativos, voltados a aplicações de curto prazo, representam hoje mais de 50% de nosso passivo externo (investimentos externos, mais capitais de curto prazo e outros investimentos). Estamos mesmo tão robustos?

RG: O Brasil tem uma enorme vulnerabilidade externa. Ela ocorre na esfera comercial, produtiva, tecnológica, monetária, financeira. A estabilidade do Brasil na verdade é falsa, é uma estabilidade de papel crepom. As reservas internacionais brasileiras correspondem hoje ao valor da dívida externa, enquanto a dívida interna é 5 vezes maior que as reservas, com um valor superior a 1 trilhão de reais. Somente o passivo de curto prazo está em torno de 600 bilhões de dólares, ou seja, três vezes as reservas.

Além disso, com essa liberalização financeira e cambial, o Brasil, que é uma casa da mãe Joana do capital, permite tanto a estrangeiros como a brasileiros converterem seus ativos monetários em dólar e mandá-los ao exterior.

O fato de o Brasil depender só em 15% do mercado americano para as suas exportações é ilusão, pois aumentamos muito nossa dependência em relação aos mercados mexicano, chileno e chinês. E esses foram três mercados que aumentaram muito suas dependências dos EUA. Assim, indiretamente, o Brasil continua tão dependente quanto antes do mercado americano para as exportações.

Dessa forma, repetindo o que já disse anteriormente, o Brasil tem uma blindagem de papel crepom e, assim que chover no sistema econômico internacional, ficaremos nus no meio da avenida, exatamente como já está acontecendo e acontecerá daqui em diante.

CC: Estão também os leigos brasileiros diante do seguinte paradoxo: em meio à crise, a economia brasileira estampou no início de setembro dados muito favoráveis, com maiores investimentos industriais e consumo das famílias no primeiro semestre, o que garantiria um crescimento do PIB de 5% nesse ano, ancorado na ampliação, portanto, do mercado interno. Ademais, o IBGE acaba de divulgar dados sobre a diminuição da taxa de desemprego e aumento da renda. O que você teria a dizer sobre estas estatísticas?

RG: Na realidade, a economia mundial cresceu de 2003 a 2007 e o Brasil, ainda que tenha pegado carona nesse movimento, ficou atrás dele, crescendo bem abaixo da média.

Em 2007, o Brasil teve um crescimento substantivo no finalzinho do ano. A partir do final de 2007, no entanto, a economia mundial começou a descer a ladeira. Na realidade, em setembro, o Brasil ainda estava vivendo o impacto do crescimento do ano passado, o que duraria todo o primeiro semestre deste ano. Daqui para frente, toda a pressão recairá sobre o país. Com o agravante de que, quando o mundo acelera, o Brasil acelera menos; quando o mundo cai, o Brasil cai mais rápido.

Quanto à questão do mercado interno, o ponto é o seguinte: o mercado interno depende da inserção do país no mercado internacional. Ou seja, o governo Lula aprofundou a vulnerabilidade externa estrutural do país, tanto do ponto de vista da intensificação de nossa dependência com relação à exportação de produtos primários, especialmente as commodities, como pela fragilidade do sistema nacional de inovações. E o aumento da desnacionalização da economia criou uma maior dependência do mercado de capitais e do sistema financeiro mundial.

Portanto, o Brasil, ao invés de se fortalecer, aumentou a liberalização e a desregulamentação comercial e financeira, que intensificam sua vulnerabilidade externa estrutural. Estamos tão fracos como há 5, 10 anos. E essa dependência do mercado interno para com o internacional significa o seguinte: quando se tem uma mudança de câmbio, há um impacto inflacionário imediato, já que o coeficiente de importações aumentou muito.

Com esse impacto inflacionário bem maior hoje, o que o Banco Central brasileiro vai fazer é aumentar ainda mais a taxa de juros. Aumentando a taxa de juros, restringe-se o crédito e acirra-se o aperto fiscal, ou seja, a economia brasileira vai travar. É uma questão de tempo, já deve estar até ocorrendo, e certamente já haverá desaceleração em 2008 em comparação a 2007, e em 2009 relativamente a 2008. Todas as previsões são de uma forte desaceleração da economia brasileira.

Ou seja, o Brasil está descendo a ladeira. Esperemos, no entanto, que o vagão brasileiro sofra uma desaceleração, e não um descarregamento, como ocorreu em 1999 e em 2002/03. O governo Lula só fez transformar o Brasil num país mais vulnerável estrutural e economicamente.

CC: Ou seja, o reiterado aumento de juros pelo Banco Central por si só já desmente esse crescimento sustentado e, ainda por cima, ancorado no mercado interno.

RG: Exatamente. Na verdade, é uma fraude dizer que o Brasil tenha blindagem. Na mínima turbulência do sistema econômico internacional, estaremos em meio a grande tempestade, que, aliás, já começou.

CC: Sabendo estar o desempenho da economia brasileira tão atrelado ao setor de commodities, "reprimarizando" nosso comércio e indicando nossa fragilidade estrutural, a que você atribui esse vai e vem recente, com grandes altas e grandes baixas de preços, repercutindo na inflação interna? Trata-se de um movimento vinculado ao crescimento da economia mundial ou originário de fortes ações especulativas?

RG: O problema das commodities é que elas são intrinsecamente voláteis em seus preços. As receitas delas oriundas são, assim, também voláteis. Não se trata, portanto, de uma questão de especular no sistema mundial do comércio, mas sim da instabilidade de preços e das receitas de exportação derivadas de commodities, o que não é nenhuma novidade.

O que acontece no caso brasileiro? O primeiro ponto a se lamentar é que o governo Lula está enforcado não só pela dívida interna, mas também pelos projetos orientados para a exportação de produtos primários, o etanol, soja, açúcar etc.

O segundo problema é que, daqui em diante, com essa desaceleração da economia mundial, a tendência é os preços das commodities caírem, o que já vem acontecendo, aliás.

Assim, o Brasil já está sofrendo as conseqüências dessa instabilidade das commodities. No horizonte de curto e médio prazo, a tendência, com a queda de preços, é o aumento déficit das contas externas brasileiras, já se deteriorando de forma acelerada. Portanto, essa crescente dependência do comércio internacional em relação às commodities, ao lado da crescente deficiência em infra-estrutura, ademais atualmente fortemente atrelada ao setor de commodities, fazem com que o Brasil tenha uma estrutura produtiva cada vez mais vulnerável, ou seja, uma vulnerabilidade externa maior na esfera comercial e produtiva.

Dessa forma, a questão é: com a queda dos preços das commodities, o que acontecerá com a dívida do agronegócio? Será renegociada pela enésima vez com tratamento preferencial? O que vai acontecer com os investimentos em infra-estrutura que são orientados para as commodities? Vão se tornar menos rentáveis? Mas quem pagará por isso? Vai recair tudo sobre o povo e a sociedade?

Sem dúvida alguma, todo esse cenário implicará num menor dinamismo da economia brasileira, que reflete a realidade da carta de investimentos medíocres que o país possui, seja nos padrões brasileiros ou internacionais. E essa dependência das commodities significará novamente uma condição muito precária para investimentos, acompanhada de baixa geração de renda e emprego. E o mercado interno sofre com isso. Aumenta-se a taxa de juros, o crédito diminui e, por fim, temos mais crise financeira.

CC: Você tem algum prognóstico positivo em meio a esse quadro sombrio?

RG: A questão é que o Brasil perdeu uma excelente oportunidade, entre 2003 e 2007, de fazer reformas estruturais relevantes e reduzir sua vulnerabilidade externa estrutural. Isso derivou de uma estratégia equivocada do governo Lula entre esses anos, e o crescimento medíocre da economia brasileira atesta esse fato.

O padrão de inserção internacional é muito frágil, sofremos uma dominação forte do setor financeiro, com um governo medíocre e covarde.

Agora, o Brasil tenta retomar sua trajetória, mas a economia internacional vai deixar o país literalmente pendurado e a blindagem de papel crepom desaparecerá, o que conduzirá o país a uma recessão. Entraremos numa forte desaceleração do crescimento. Esperemos que não signifique uma crise econômica e política mais profunda. Até 2010, muita água vai correr embaixo dessa ponte, que certamente vai trepidar bastante.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Colaborou o jornalista Gabriel Brito.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

PSOL esteve presente acompanhando o Referendo Revogatório na Bolívia

No último dia 10 de agosto aconteceu na Bolívia o Referendo Revogatório dos mandatos do Presidente Evo Morales, do Vice-Presidente Álvaro Linera e dos governadores dos nove departamentos daquele país. A delegação do PSOL esteve representada por três observadores internacionais, pelo Senador José Nery a convite da Corte Nacional Eleitoral, por Juliano Medeiros, militante do PSOL no Rio Grande do Sul e também diretor da UNE e por mim, Nathalie Drumond, militante do PSOL em São Paulo e também diretora do DCE da USP. Além de nossa delegação, também estavam presentes representantes de Estado e de organizações sociais de diversos países como os companheiros peruanos do La Lucha Continua, os companheiros venezuelanos da Frente Popular e da Frente Campesina. Nós do PSOL acompanhamos desde quinta-feira os preparativos para o referendo. Estivemos presentes junto ao grupo de observadores internacionais que acompanhou todo o processo e tivemos oportunidade de travar contato com companheiros militantes da Bolívia e de outras delegações.

Contexto em que se deu o Referendo

A proposta de referendo foi aprovada poucos dias depois de saírem os resultados da aprovação do Estatuto Autonômico em quatro províncias bolivianas, Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija, que compõe o que se chama de “Meia Lua”. Os governadores da “meia lua” não hesitaram em deslegitimar o referendo alegando que cada província tinha soberania para aceitar ou não a sua realização. Neste contexto, a direita golpista embruteceu mais uma vez seu discurso de oposição a Evo. Poucos dias antes do referendo o clima era tenso, beirando a possibilidade de um conflito violento. Iniciaram-se neste período greves de fome em defesa do repasse dos benefícios do “Impuesto Directo a los Hidrocarburos” (IDH), piquetes que fecharam avenidas e estradas por longos dias e também ocorreu a tomada das pistas de alguns aeroportos impedindo que Evo chegasse às atividades da campanha do “Sim”.

Sem uma ação nacionalmente mais unificada, mas com um enfrentamento forte em algumas províncias, a direita separatista utilizou da desculpa da autonomia para afirmar sua defesa de um projeto neoliberal em que pese as relações privilegiadas com empresas transnacionais, o retorno do seu domínio exclusivo sobre a venda dos recursos naturais da Bolívia, entre outras coisas, e que ela possa seguir governando para as minorias ricas. É importante também esclarecer que a oposição de direita a Evo não é um setor absolutamente coeso, mas tem ganhado força e expressão social na região da “meia lua”, especialmente em Santa Cruz, cujo prefeito Rubén Costas segue se fortalecendo na escalada contra Evo. A burguesia boliviana da “meia lua” mostrou sua capacidade de organização, o respaldo significativo que tem da população, principalmente dos setores da classe média, além do apoio do imperialismo norte-americano. Somado a resistência às políticas de Evo, a direita seguiu numa ofensiva quanto ao seu projeto de autonomia. Prometendo que assim que passasse o referendo, estas iniciariam em suas províncias a criação de um parlamento autônomo, a elaboração de leis próprias, a criação de suas próprias polícias militares, etc.

Enquanto isso, o governo Evo Morales também enfrentava uma outra oposição, esta vinda da Central Obrera Boliviana. A COB há algumas semanas vinha liderando uma forte mobilização em defesa de uma proposta própria de “Lei de Pensões”. Porém, na semana antecedente ao referendo a central convocou uma greve geral e advertiu o governo que se caso suas reivindicações não fossem acatadas ela indicaria para o referendo um “voto de castigo”. Neste mesmo período, os mineiros da COB de Oruro organizaram um levante que foi reprimido pela polícia causando duas mortes e dezenas de feridos.

Apesar do condenável ato de repressão, podemos tirar daí algumas conclusões. A política da COB de chamar uma greve geral dias antes do referendo e de indicar um voto de castigo a Evo significou somar coro com a oposição de direita. Porque num momento tão polarizado da política boliviana, onde de um lado está Evo com o apoio popular majoritariamente campesino-indígena e do outro a direita golpista, posicionar-se decididamente contra Evo não fortalecera à COB e às suas reivindicações, mas sim fortaleceu a direita golpista que vem querendo se postular, e tem conseguido, como principal saída para aqueles que estão descontentes com a política de Evo de defesa da soberania nacional e de democratização do Estado. E foi no campo da burguesia que a COB jogou neste momento.

Os resultados do referendo: Evo sai ratificado, mas a “meia lua” também.

No dia do referendo o clima geral na Bolívia foi de bastante tranqüilidade. Os resultados do referendo do dia 10 de agosto mostram o grande apoio popular que Evo Morales logra ainda na Bolívia. Do total de votos válidos, 67% eram a favor da permanência do presidente, 14% a mais do total obtido na sua eleição em 2005. Um grande ato em comemoração à sua vitória reuniu em torno de 10 mil pessoas em frente ao Palácio do Governo, minutos após a divulgação dos resultados. Porém, os resultados da consulta sobre os governadores também significam muito para entender melhor este processo. Apesar, de três prefeitos terem sido revogados - os prefeito de Cochabamba e de La Paz alinhados à oposição e o prefeito de Oruro do MAS – a maioria dos prefeitos da “meia lua” foram ratificados com ampla margem de aceitação. O governador de Santa Cruz, por exemplo, obteve 66% dos votos favoráveis. Assim como os seguidores de Evo, os apoiadores de Ruben Costas também se reuniram em Santa Cruz para comemorar a sua vitória. Neste ato, Costas afirmou que os resultados do referendo só acirram o ódio na Bolívia e que ele e a população de Santa Cruz seguirão combatendo a ditadura de Evo Morales. O governador afirmou que seguirá combatendo o governo e, apesar de seu discurso ter se apegado aparentemente a princípios legalistas, democráticos e de intenções modernizadoras da política e da economia boliviana, não resta dúvida que a direita não deixará de usar nenhuma arma contra Evo, mesmo que isto signifique um enfrentamento muito mais violento ou mesmo um golpe militar.

Evo tenta evitar ao máximo este cenário, em todos os seus discursos afirmava querer repactuar a Bolívia, defendendo a nacionalização dos recursos naturais, o fim da pobreza, o projeto de nova Constituição, mas também convocando os prefeitos ratificados à negociação. Afirmou assim, que seu governo está disposto a compatibilizar o projeto de nova Constituição com os Estatutos Autonômicos aprovados em algumas províncias. O projeto de nova constituição elaborado pelo MAS e defendido pelo governo Evo tem como carro chefe a legitimação e defesa da soberania de cerca de 36 etnias indígenas e essa proposta fora absolutamente rejeitada pela direita, mas também tem recebido muitas críticas de alguns setores da própria esquerda do país. Neste projeto, o governo torna contundente o seu caráter nacionalista campesino-indígena, de defesa da soberania nacional que passa pela soberania das dezenas de grupos étnicos que povoam a Bolívia. E para tanto, Evo Morales se apóia nas possibilidades de melhorias da economia boliviana com o aumento dos preços no mercado internacional de matérias-primas como o gás e o estanho. Assim, o governo teria condições materiais mais favoráveis que dariam mais margem para que se pudesse avançar com as propostas de nacionalização e também seguir com a linha da erradicação do analfabetismo na Bolívia, com projeto de democratização do Estado, combate à corrupção e finalmente a implementação da nova constituição. Dessa forma, para seguir governando sobre este projeto Evo também busca o apoio das forças armadas e algum tipo de conciliação com a burguesia deste país.

Porém, a burguesia separatista do oriente (a “meia lua”) já deu provas que não está disposta a negociar e logo na primeira reunião com o governo após o referendo recusou a tríplice proposta de Evo de incluir as autonomias na nova Constituição, de fazer um pacto fiscal para decidir os recursos dos impostos petroleiros e de fazer um pacto constitucional para eleger a autoridades do Poder Judicial e Eleitoral. Esta tática de Evo de negociar com os golpistas neste momento só se justifica caso haja a intenção de se ganhar tempo e se fortalecer contra eles. Mesmo assim, durante todo o desenrolar do referendo e mesmo diante da vitória obtida por Evo nas urnas o discurso do governo ainda aponta para o pacto com este setor. Aí se encontra um problema grave. A direita, principalmente a do oriente, não irá negociar muito menos ceder de seu projeto de poder. E enquanto Evo assumir uma postura de conciliação e de dar legitimidade aos governadores da “meia lua”, ele estará desarmando a população contra os mesmos. É óbvio que as condições para este enfrentamento não são sempre favoráveis, de qualquer forma não resta alternativa senão fortalecer o movimento de massas e seguir debilitando a burguesia boliviana com as nacionalizações, com um programa para reforma agrária, com um projeto de previdência que favoreça os trabalhadores, etc. Pois é possível que não existindo uma mudança drástica neste sentido a direita passe a ocupar o espaço de Evo, principalmente a partir do momento que esta política de conciliação deixar de dar respostas.

De qualquer forma, Evo conta ainda com grande apoio popular, principalmente do campo. A paralisação geral do dia 19 de agosto, denominada “paro cívico”, que fora convocada pelos governadores da “meia lua” contra as políticas de Evo, não teve adesão total da população desta região. A paralisação se restringiu basicamente às capitais dos departamentos e mesmo em Santa Cruz, onde o movimento foi mais forte, se teve notícia de resistência à paralisação em defesa de Evo. Assim, apesar de ter sido referendada, parece que a direita não conta com o apoio massivo da população nas suas ações mais radicalizadas. Neste sentido, o governo de Evo Morales tem a maioria do povo boliviano ao seu favor, que defende seu projeto de mudança social, o apóia na luta contra o neoliberalismo e o imperialismo norte-americano e com certeza será a principal força na batalha contra a burguesia golpista da Bolívia. Evo conta também com a simpatia de Hugo Chávez e pode se favorecer de uma conjuntura latino-americana na qual despontam novos e fortes processos de mobilização contra as imposições do capital, combinados com a subida ao poder de governos democráticos e populares, como é o caso recente do Paraguai com o presidente Fernando Lugo. Neste contexto, se as dificuldades são muitas, com certeza a luta do povo pode ser maior e trazer novas e grandes vitórias.

Nathalie Drumon

Coordenadora do DCE da USP

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

LGTTBS DEBATEM COM CANDIDATOS DE CAMPINAS

As noites de sábado no Sucão (Praça Bento Quirino, Centro) não serão mais as mesmas, pelo menos até o início de setembro. Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais da cidade têm um encontro marcado com candidatos à prefeitura e à Câmara Municipal de Campinas, sempre a partir das 19h.

O Fórum LGTTB programou debates públicos para que a população conheça os candidatos que dizem ter propostas políticas relacionadas à diversidade sexual. O Fórum também quer que, caso eleitos, o maior número possível de candidatos tomem conhecimento e se comprometam com as demandas desta população.

“O formato dos debates foi planejado para que a praça pública se torne um espaço de reflexão política. As pessoas presentes poderão fazer perguntas e cobrar o comprometimento dos candidatos. Todos poderão ficar frente-a-frente com aqueles que dizem nos defender e que elaborarão leis que ajudem a construir uma sociedade menos homofóbica e mais humana”, diz Tiago Duque, membro do Fórum e do Grupo Identidade.

Segundo Rodrigo Braga, integrante do Identidade e do NuDU da UNICAMP, “todos os partidos e candidatos foram convidados, mas nem todos aceitaram o desafio de estar no meio de travestis, lésbicas e gays, em praça pública. A ausência de candidatos também revela muito sobre o nível de comprometimento que têm conosco e com o combate à homofobia em nossa cidade.”.
Anotem na agenda e compareçam a esta atividade! Escolher o melhor candidato é um passo para transformar a sociedade e diminuir o preconceito.

Programação completa:

16 de agosto – Debate com candidatos/as a Prefeito
A – Paulo Bufalo (PSOL)

23 de agosto – Debate com candidatos/as a Vereador/a:
A - Wilma do Mario Gatti- PSC
B - Braga do OP - PT
C – Prof. Sueli - PT
D - Mariana Conti - PSOL
E - Marcela Moreira - PSOL

30 de agosto - Debate com candidatos/as a Vereador/a:
A - Mococa - DEM
B - Marião - PT
C – Marinho do PT - PT
D - Ruipter - PT
E - Biula - PSOL

06 de setembro - Debate com candidatos/as a Vereador/a:
A – Deco Ribeiro - PCdoB
B - Faveri - PT
C - Marcia Molina - PT
D - Durval de Carvalho - PT
E - Raquel Guzzo - PSOL
F - Arlei – PSOL

Mais informações: 19.32348953, 19. 92929224 (Rodrigo) ou 19.91066456 (Cris)

sábado, 2 de agosto de 2008

Carta aberta so MST

MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – MST/SP

Jornada de Lutas de julho revela que somente a luta organizada dos trabalhadores(as) promoverá a reforma agrária que o

povo brasileiro necessita!

No dia 21 de julho o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra iniciou mais uma Jornada Nacional de lutas por Reforma Agrária, promovendo mobilizações em vários estados do Brasil.

Em São Paulo, cerca de 400 trabalhadores e trabalhadoras ocuparam a sede da Superintendência Regional do INCRA, juntamente com outros trabalhadores que ocuparam escritórios regionais deste mesmo órgão em cinco municípios do estado, com o objetivo de impulsionar um processo de negociação que permita conquistas ou avanços baseados em uma pauta configurada em três eixos fundamentais, sendo eles:

  1. Melhoria das condições de vida nos assentamentos que carecem de investimentos em infra-estrutura;
  2. Assentamento imediato de 1mil e seiscentas famílias acampadas (algumas há pelo menos 5 anos);
  3. Assistência técnica, fomento à cooperação e agroindústria, para garantir condições básicas na produção de alimentos.

Após interlocuções feitas junto à direção do INCRA, ocorreu no dia 28 de julho uma primeira audiência na qual pudemos detalhar os eixos da pauta de reivindicação. Nesta ocasião, a Superintendência apresentou um orçamento insuficiente para viabilizar o atendimento das demandas apresentadas.

Reconhecendo que, para implementar as políticas públicas emergenciais que caracterizariam um processo efetivo de reforma agrária no estado de São Paulo seria necessário multiplicar os recursos existentes no atual momento, o MST concluiu que o avanço das negociações passou a estar condicionado à ampliação do volume de recursos destinados para a Reforma Agrária.

Sendo assim, o único caminho apontado pela mobilização dos trabalhadores levou a propor a ampliação do processo de negociação, envolvendo a Presidência Nacional do INCRA e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, medida tomada em consonância com os desdobramentos da Jornada Nacional de lutas, em especial, com a manutenção da ocupação do prédio da Superintendência Regional do INCRA no estado do Rio Grande do Sul.

No decorrer das tentativas de envolvimento das esferas nacionais no processo de negociação, não obtivemos nenhuma resposta que sinalizasse para a solução do impasse e, concomitante a este posicionamento, o que se encaminhou foi o pedido judicial e a ameaça de reintegração de posse dos prédios públicos ora ocupados.

No bojo desses procedimentos de interlocução, recebemos ainda uma “Proposta de Acordo” por parte da Superintendência do Incra-SP no dia de 31 de julho (quinta-feira), na qual o conteúdo apresentado, além de apenas apresentar um relatório das ações realizadas nos últimos anos, trouxe um planejamento de ações para efetivar o gasto do escasso orçamento já existente. Na nossa avaliação não houve avanços significativos referente ao que havia sido exigido nesta proposta apresentada por escrito.

Nesta tarde de sexta-feira, 01 de agosto, retomamos as negociações e as concluímos por ora com a Superintendência do INCRA com o anúncio por parte do superintendente de que terá à disposição para execução das demandas referentes às obras de infra-estrutura nos assentamentos o montante de R$14 milhões. Além disso, o compromisso de retomar o processo de planejamento das ações juntamente com a comissão de negociação legitimada pela direção do MST/SP. Ainda como resultado de nossa luta, temos o compromisso do Ministério do Desenvolvimento Agrário e INCRA Nacional de receber a comissão nacional de negociação do MST para tratar dos entraves referentes à reforma agrária em âmbito nacional.

Até o início de nossa jornada, o orçamento disponível era na ordem de R$6 milhões (para o item obras). Portanto, o acréscimo destes R$8 milhões é fruto de nossa luta, que não deve cessar enquanto não conquistarmos a reforma agrária de fato neste país.

Diante de todo o caminho percorrido durante esta jornada de lutas, o posicionamento assumido pelo Governo Federal nos revela a já recorrente prioridade de sua política econômica, ou seja, destinar orçamento para investir na política agrícola que beneficia o agronegócio, e reprimir os recursos para as políticas públicas que representam o real interesse da população como a reforma agrária.

Chegamos ao desfecho desta mobilização conscientes de que as pequenas concessões feitas não satisfazem as demandas por reforma agrária no estado de São Paulo, e convencidos de que apenas a organização dos trabalhadores e trabalhadoras em luta por seus direitos é que pode garantir a implementação das conquistas realizadas até então e nos devolver o mínimo de dignidade enquanto trabalhadores que somos.

Um país como o Brasil necessita da reforma agrária para combater as injustiças sociais e ser considerado soberano, enquanto se sujeitar à posição de fornecedor de matérias-primas e agro-exportador que remonta ao caráter colonial da dependência brasileira, esta soberania não será atingida.

Reiteramos que o papel do MST é lutar pela implementação da reforma agrária no Brasil, com isto realizamos nesta jornada apenas o nosso dever de fazer a disputa por recursos orçamentários para efetivar políticas públicas que são de direito dos trabalhadores garantidos pela Constituição Brasileira.

NOS COMPROMETEMOS A JAMAIS ESMORECER E LUTAR SEMPRE!!!

01 de agosto de 2008

MST/SP