sábado, 17 de janeiro de 2009

MST - 25 anos de teimosia

Em janeiro de 1984, havia uma processo de reascenso do movimento de massas no Brasil. A classe trabalhadora se reorganizava e acumulava forças orgânicas. Os partidos clandestinos já estavam na rua, como o PCB, PCdoB, etc. Tínhamos conquistado uma anistia parcial, mas a maioria dos exilados tinham voltado. Já havia se formado o PT, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e a Conclat (Coordenação Nacional da Classe Trabalhadora) .

Por João Pedro Stedile*

Amplos setores das igrejas cristãs ampliavam seu trabalho de formiguinha, formando consciência e núcleos de base em defesa dos pobres, inspirados pela Teologia da Libertação. Havia um entusiasmo em todo lugar, porque a ditadura estava sendo derrotada e, a classe trabalhadora brasileira, na ofensiva, lutando e se organizando.

Os camponeses no meio rural viviam o mesmo clima e a mesma ofensiva. Entre 1979 e 1984, se realizaram dezenas de ocupações de terra em todo o país. Os posseiros, os sem terra e os assalariados rurais perderam o medo - e foram à luta. Não queriam mais migrar para a cidade como bois marcham para o matadouro (na expressão de nosso saudoso poeta uruguaio Zitarroza).

Fruto de tudo isso, nos reunimos em Cascavel, em janeiro de 1984, estimulados pelo trabalho pastoral da CPT, lideranças de lutas pela terra de 16 estados brasileiros. E lá, depois de cinco dias de debates, discussões, reflexões coletivas, fundamos o MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Os nossos objetivos eram claros: organizar um movimento de massas a nível nacional, que pudesse conscientizar os camponeses para lutarem por terra, por reforma agrária (mudanças mais amplas na agricultura) e por uma sociedade mais justa e igualitária.

Queríamos, enfim, combater a pobreza e a desigualdade social. A causa principal dessa situação no campo era a concentração da propriedade da terra, apelidada de latifúndio.

Não tínhamos a menor idéia se isso era possível. E nem quanto tempo levaríamos na busca de nossos objetivos. Passaram-se 25 anos, muito tempo. Foram anos de muitas mobilizações, muitas lutas e de uma teimosia constante, de sempre lutarmos e nos mobilizarmos contra o latifúndio. Pagamos caro por essa teimosia. Durante o governo Collor fomos duramente reprimidos, com a instalação inclusive de um departamento especializado na Policia Federal para o combate aos sem-terra.

Depois, com a vitória do neoliberalismo do governo FHC, foi o sinal verde para os latifundiários e suas polícias estaduais atacarem o movimento. Tivemos em pouco tempo dois massacres: Corumbiara e Carajás. Ao longo desses anos, centenas de trabalhadores rurais pagaram com sua própria vida o sonho da terra livre.

Mas seguimos a luta. Brecamos o neoliberalismo elegendo o governo Lula. Tínhamos esperança de que a vitória eleitoral pudesse desencadear um novo reascenso do movimento de massas, e com isso a reforma agrária tivesse mais força de ser implementada. Não houve reforma agrária durante o governo Lula. Ao contrário, as forças do capital internacional e financeiro, através de suas empresas transnacionais, ampliaram seu controle sobre a agricultura brasileira.

Hoje a maior parte de nossas riquezas, produção e distribuição de mercadorias agrícolas está sob controle das empresas transnacionais. Elas se aliaram com os fazendeiros capitalistas e produziram o modelo de exploração do agronegócio. Muitos de seus porta-vozes se apressaram a prenunciar nas colunas de jornalões burgueses que o MST se acabaria. Lêdo engano.

A hegemonia do capital financeiro e das transnacionais sobre a agricultura não conseguiu, felizmente, acabar com o MST. Por um único motivo: o agronegócio não representa solução para os problemas dos milhões de pobres que vivem no meio rural. E o MST é a expressão da vontade de libertação desses pobres.

A luta pela reforma agrária, que antes se baseava apenas na ocupação de terras do latifúndio, agora ficou mais complexa. Temos que lutar contra o capital, contra a dominação das empresas transnacionais. A reforma agrária deixou de ser aquela medida clássica: desapropriar grandes latifúndios e distribuir lotes para os pobres camponeses.

Agora, as mudanças no campo para combater a pobreza, a desigualdade e a concentração de riquezas depende de mudança não só da propriedade da terra, mas também do modelo de produção. Se agora os inimigos são também as empresas internacionalizadas , que dominam os mercados mundiais, significa também que os camponeses dependerão cada vez mais das alianças com os trabalhadores da cidade para poder avançar nas suas conquistas.

Felizmente, o MST adquiriu experiência nesses 25 anos: sabedoria ecessária para desenvolver novos métodos e novas formas de luta de massa, que possam resolver os problemas do povo.


João Pedro Stedile
Integrante da coordenação nacional do MST.
Publicado na Revista Caros Amigos - Janeiro de 2009.

Venezuela expulsa embaixador de Israel por ofensiva em Gaza

Governo informa que medida 'reafirma sua vocação de paz e exigência de respeito ao direito internacional'

CARACAS - O governo da Venezuela decidiu expulsar nesta terça-feira, 6, o embaixador de Israel no país e parte do corpo diplomático israelense na Venezuela, "reafirmando sua vocação de paz", informou a chancelaria. "O governo da República Bolivariana da Venezuela decidiu expulsar o embaixador de Israel e parte do pessoal da Embaixada de Israel na Venezuela, reafirmando sua vocação de paz e sua exigência de respeito ao direito internacional", diz um comunicado da chancelaria venezuelana, difundido pela emissora estatal de televisão.
Ainda nesta terça, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, afirmou que o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, e o presidente dos Estados Unidos, George W.Bush, deveriam ser levados ao Tribunal Penal Internacional pela "barbárie" que comentem com os ataques armados à Faixa de Gaza."O governante de Israel deveria ser levado ao Tribunal Penal Internacional junto com o presidente dos Estados Unidos se houvesse vergonha neste mundo", declarou Chávez durante uma visita a um hospital infantil em Caracas.
O líder venezuelano reiterou que sua administração repudia o "massacre que o governo assassino de Israel" executa contra palestinos indefesos. "Como é covarde o Exército de Israel por atacar um povo rendido e inocente; e ainda se justifica dizendo que está defendendo seu povo!", afirmou.Além disso, Chávez pediu mais uma vez que "o povo de Israel se levante contra esse governo (dirigido por Olmert)". "Torço para que a comunidade judaica venezuelana se pronuncie contra esta barbárie. Vocês não rejeitam firmemente qualquer ato de perseguição? Não rejeitam o que aconteceu com os judeus no Holocausto? E o que estamos vendo agora? Façam alguma coisa. Sejam justos!", manifestou Chávez.
Ele reiterou seu pedido "ao mundo para deter esta loucura", e afirmou também que seu governo tenta "fazer uma ponte aérea" com aliados no Oriente Médio para distribuir alimentos, remédios e água na área de conflito.
O presidente venezuelano sustentou ainda que a Venezuela defende a paz, e que seu governo olha para todos os povos do mundo, incluindo o palestino e o judeu. "Aqui (na Venezuela) vive uma comunidade palestina que adoramos, como a todos os povos do mundo. Também adoramos os judeus", disse.
Mais de 600 pessoas morreram e outras 2.600 ficaram feridas em Gaza desde o início da ofensiva israelense, em 27 de dezembro. (Agências EFE e Associated Press)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Quantos cairão?


Quantos precisarão cair, para que nós nos levantemos?
Manifeste-se:

Segue programação do comitê em defesa do povo palestino de Campinas.
Sexta-feira - 09 de janeiro às 17 horas na Praça da Catedral em Campinas - Vigília e Panfletagem contra o massacre na Faixa de Gaza

Domingo - 11 de janeiro às 10 horas no MASP - Av. Paulista em São Paulo - Ato e Passeata pelo fim imediato dos ataques à Faixa de Gaza

Segunda-feira - 12 de janeiro às 18 horas no Sindicato dos Metalúrgicos - Próxima Reunião do Comitê


Um recado do front




“há crianças e pessoas a morrer na sua própria terra. Como nós lutámos aqui, eles devem lutar pela sua causa. Estamos com eles e se for preciso e nos chamarem, nós as mulheres, mesmo de rastos, avançaremos sobre Israel”.

esta é a voz de uma mulher libanesa dizendo que as pessoas devem se revoltar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Toda a solidariedade com o povo Palestino


Declaração da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL sobre o massacre ao povo palestino, perpetrado pelo Estado sionista de Israel.

1. O estado sionista de Israel deu demonstrações de que está decidido a levar adiante o maior massacre genocida desde a Guerra dos Seis Dias. Seus bombardeios causaram já mais de trezentas e cinqüenta mortes, milhares de feridos e destruição de casas, edificios, e um hospital. Seus tanques se preparam para entrar em uma zona sitiada, que está cercada como se fosse um grande campo de concentração. Seu ministro da defesa declarou que Gaza é uma zona fechada e que seu país está em guerra total contra o Hamas, em uma ação prolongada. Impediu, inclusive, a cobertura de mais de quatrocentos jornalistas. Em outras palavras, isto quer dizer guerra total contra o povo Palestino e autoridades legítimas, eleitas pelo mesmo, já que o Hamas foi eleito pelo voto popular em 2006, expressando a vontade majoritária do povo palestino.

2. Com a trégua de seis meses acordada, o Hamas mostrou sua disposição de negociar com Israel. O governo de Olmert, pelo contrário, utilizou a mesma para preparar a matança. Contra a mentira que esta circulando da chamada "opinião pública mundial" que Hamas rompeu a tregua, foi o governo israelense quem o fiz, não apenas porque manteve o cerco de Gaza, mas também porque bombardeou sua fronteira com o Egito para destruir túneis pelos quais os Palestinos recebiam seus alimentos e petrechos desde o Egito.

3. Este massacre não faz mais que confirmar a legitimidade da luta do povo palestino para recuperar seus territórios usurpados. O estado de Israel mostra mais uma vez que é um estado que se sustenta com base no militarismo e no terror, que viola os direitos humanos, desacatando ate também a decisão da ONU que obrigava de entregar as zonas ocupadas em 1967.

4. A chamada “comunidade internacional”, começando pelo bloco de negociação dos quatro (ONU, EUA, UE e Rússia), tem dado provas de sua aberta parcialidade em favor de Israel seja pelo alinhamento direto dos Estados Unidos e a cumplicidade de outros. O governo de Bush foi quem mais ostensivamente o praticou, declarando apoio a Israel e a seu massacre, dizendo que o Hamas é terrorista, enquanto Obama permanece em um silêncio cúmplice. Porém, não foram os únicos. Os países como Egito, Arábia Saudita e Jordânia são também responsáveis por este massacre. Não por coincidência a ministra de relações exteriores (e próxima candidata a presidente) Tzipi Livni se reuniu com Mubarak dias antes de começar o massacre.

5. Este papel traidor de governos árabes em relação a causa palestina contrasta com o enorme heroísmo, disposição e capacidade de luta que existe e já se provou nas Intifadas e na atual heróica resistência em Gaza, transcendendo ao todo o mundo árabe e muçulmano. Há apenas um ano e meio, esse mesmo exército que se prepara para entrar em Gaza, foi derrotado quando após os bombardeios similares, invadiu o sul do Líbano e teve que se retirar, superado nos combates pela milícia popular do Hezbolah. Uma das causas desta ofensiva em Gaza é recuperar a moral perdida nesta derrota, que mostrou ao mundo que é possível derrotar ao exército sionista. Só a cumplicidade das grandes potencias e a traição do mundo árabe explicará que Israel possa seguir com sua incursão sobre a Faixa de Gaza.

6. Sejam quais forem os resultados imediatos da atual escalada assassina, este poder com base no terrorismo de Estado a historia mostra que não poderá se sustentar. O poderio militar dos EUA sucumbiu e não pode com o Afeganistão nem com Iraque. O mesmo poderá acontecer desta vez. Nem o maior horror causado a um povo poderá matar a causa palestina. Cada morto do Hamas, cada crime cometido, faz com que se formem mais e mais militantes da causa palestina e que se unam as massas muçulmanas xiitas e sunitas, como já está acontecendo entre Hamas e Hezbolah.

7. O governo bolivariano da Venezuela, mais uma vez, deu um exemplo com sua declaração contundente de “solidariedade ao Povo Palestino e seu chamado a comunidade internacional, para empreender uma campanha de massivo repúdio a estas infames ações violentas, através das quais se busca aniquilar a esperança de vida de um povo inteiro”.

O PSOL convoca o desenvolvimento desta campanha, em todas as frentes em nosso país. Tornamos pública nossa solidariedade com as autoridades Palestinas e toda a comunidade árabe no Brasil. O PSOL realiza o chamado para construir todo o tipo de ações de repúdios, campanhas e manifestações públicas nas ruas e diante das embaixadas e consulados dos Estados Unidos e Israel.

Pedro Fuentes é Secretário de Relações Internacionais do PSOL

SOMOS TODOS PALESTINOS!

Mais uma vez a humanidade é surpreendida com uma ofensiva militar do Estado Terrorista de Israel contra o heróico povo palestino. Mais uma vez a pátria das oliveiras é atacada.

A invasão militar da Palestina pelos sionistas israelenses semeia, desde 1947/1948, o ódio, a violência e a discórdia na região. Rios de sangue jorram constantemente nas ruas de Gaza, Nablus, Ramallah e outras cidades Palestinas. Milhares de mortos, milhares de torturados, milhares de presos.

Em 2002, fizemos chegar a bandeira do MST em Ramallah, no quartel-general da Autoridade Nacional Palestina-ANP. Entregamos nossa bandeira nas mãos de Yasser Arafat, e presenciamos a destruição da sede da ANP pelo exército de Israel. Ali, diante da poeira das bombas sionistas, reafirmamos nosso compromisso de defender a luta do povo palestino.

Também participamos, junto com a Via Campesina, das manifestações do "Dia da Terra" e do Fórum Social Palestino.

Em 2007, em nosso V Congresso, 18 mil trabalhadores e trabalhadoras sem terra manifestaram novamente nosso apoio à causa palestina.

A cada ano uma cidade destruída por Israel, um vilarejo, um bairro, várias casas, prédios, centenas de oliveiras. A cada ano mais prisões, torturas e mortes de homens, mulheres, jovens, idosos, crianças palestinas.

O que faríamos se algum governo colonialista e invasor de nossa pátria destruísse nossas casas, matasse nossos filhos, torturasse nossos parentes, prendesse nossos amigos? E se isso acontecesse todos os dias durante sessenta anos? De 1948 a 2008, sessenta anos de dor, sofrimento e injustiças.

Enquanto milhares de pessoas no mundo se preparam para encontrar/reencontrar seus familiares para as festas de final de ano, centenas de palestinos em Gaza não terão festas, nem comemorações.

Muitos palestinos de Gaza não poderão abraçar seus filhos na noite de 31 de dezembro, não poderão abraçar os pais, pois filhos e pais engrossam as estatísticas dos mortos nos bombardeios dos últimos dias. Muitas famílias não terão o direito de enterrar seus mortos, pois os corpos foram despedaçados pelas bombas ou ainda estão desaparecidos no meio dos escombros.

Famílias inteiras destruídas. Mais de 360 mortos, mais de 1500 feridos.

Alguns pedem aos palestinos: "calma", "paciência"! Outros falam em cessar a violência de "ambos os lados"!

Nós, do MST, pedimos aos palestinos: continuam lutando, continuem resistindo, com todas as suas forças, pois vocês são para nós tudo aquilo que a humanidade construiu de melhor, vocês palestinos representam com sua luta os mais íntegros e dignos sentimentos humanos, vocês são a prova viva de que é possível enfrentar o imperialismo em condições muito desfavoráveis e, ainda assim, vencer.

Companheiros e companheiras de Gaza, palestinos e palestinas que sonham e combatem pelo seu direito à autodeterminação nacional, enquanto existir uma única pedra, uma única oliveira, uma única criança, haverá esperança e haverá continuidade da luta.

Continuem existindo, pois sua existência, depois de sessenta anos de genocídio, só reafirma nossa certeza de que nada, nem ninguém, pode deter a marcha de um povo pela sua libertação.

Também reafirmamos que o povo palestino tem o direito de se defender diante do genocídio praticado pelo governo de Israel.

Enquanto terminamos este texto, vemos notícias de protestos de trabalhadores, estudantes, jovens, organizações sociais que, em Israel, estão se mobilizando contra o governo e a classe dominante daquele país. Esta aliança entre trabalhadores de todo o mundo é a nossa mais poderosa arma contra o sionismo/imperialismo.

Expressamos mais uma vez nossa admiração e respeito pela resistência palestina, nas suas diversas expressões políticas e ideológicas.

Que a unidade nacional de todas as forças populares, democráticas e anti-imperialistas da Palestina consiga derrotar mais uma vez o agressor sionista.

Estamos e estaremos juntos e vigilantes, agora e durante todo o próximo ano, fortalecendo nesta luta prolongada a solidariedade com o povo palestino.

VIVA A LUTA DO POVO PALESTINO!

DEFENDER GAZA DE MAIS ESSA AGRESSÃO SIONISTA/IMPERIALISTA!


MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA-MST/BRASIL

2009: 30 anos depois Santo Dias Vive

Repórter Brasil

Morto pela polícia militar em 1979, Santo Dias virou sinônimo da luta operária contra a desigualdade; quase 30 anos depois, uma pequena multidão ainda se reúne no local do crime para não deixar apagar a memória do militante.

Amigos de Santo Dias da Silva pintam a rua para relembrar a luta do operário. Os companheiros dele ainda voltam ao local da sua morte, 28 anos após o tiro pelas costas que encurtou a sua vida, e reforçam, com tinta vermelha, a inscrição no asfalto: "Aqui foi assassinado, pela Polícia militar, às 14h, o operário Santo Dias 30-10-1979+".
O rito ocorre todos os anos desde que Santo Dias da Silva, operário e militante da Pastoral Operária, foi morto pela Polícia Militar em frente à fábrica Sylvania, na Zona Sul de São Paulo. O crime aconteceu enquanto Santo Dias distribuía panfletos convocando operários para uma greve..
Na última terça-feira (30), cerca de 80 pessoas compareceram à antiga portaria da fábrica, que nem está mais lá. A maioria tem cabelos brancos, já passando dos 60 anos, mas continua, de alguma forma, o trabalho deixado pelo operário: "É importante não deixar apagar a chama", afirma o companheiro de luta Nelson Nakamoto, 55, que hoje trabalha na Agência de Desenvolvimento Solitário da CUT.
Depois de pintar o chão, os amigos seguem para o Cemitério de Campo Grande, a poucas quadras dali. No cruzamento com a Av. Nossa Senhora do Sabará, comerciantes se aglomeravam nas portas para ouvir a música: "Companheiro Santo / você está presente / no coração do povo / na voz de nossa gente".
Estandartes de outros mártires, como Chico Mendes e Irmã Dorothy, são colocados ao pé do túmulo de Santo Dias, onde o padre Jaime Crowe, 62, reza uma missa. Quase três décadas depois do assassinato, a memória do lavrador que veio de Terra Roxa (SP), transformando-se depois em operário e lutador, ainda tira lágrimas de alguns amigos.

A história de Santo Dias se cruza com a de vários líderes da esquerda brasileira que fundaram o Partido dos Trabalhadores (PT), criado três meses após o assassinato do operário. Muito ligado à Igreja Católica, Santo militou, nos anos 60, nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na década seguinte, ajudou a fundar a Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo e, em plena ditadura, participou do Movimento do Custo de Vida, exigindo preços mais baixos e salários mais altos para os pobres. Em 1978, chegou a disputar, pela oposição, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, mas não venceu.
Em outubro de 1979, pouco depois da edição da Lei da Anistia, Santo era um dos líderes de uma greve que reunia cerca de seis mil metalúrgicos em São Paulo. Em uma panfletagem em frente à fábrica Sylvania, a polícia tentou prender alguns de seus colegas. Num momento de tensão, o PM Herculano Leonel o baleou pelas costas. Santo tinha então 37 anos. Deixou dois filhos e esposa.
A morte do operário ajudou a fervilhar o clima pelo fim da ditadura. Dezenas de milhares de trabalhadores - alguns veículos citam 15 mil, outros 30 mil - compareceram ao velório de Santo Dias na Catedral da Sé, em 31 de outubro daquele mesmo ano. "Quase nada está certo nesta cidade, enquanto houver duas medidas: uma para o patrão, outra para o operário.", discursou Dom Paulo Evaristo Arns, presidindo a missa de corpo presente.
Também estiveram lá líderes da oposição ao regime militar, como Hélio Bicudo, Luiz Eduardo Greenhalgh, e Perseu Abramo, além de dois políticos que ainda iniciavam sua trajetória: Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

No cemitério de Campo Grande, lápide chama atenção entre os jazigos mais pobres.
Em vez de calar os operários, a morte de Santo Dias fortaleceu a voz e a força daqueles que trabalhavam no chão da fábrica. Família, amigos e companheiros logo criaram o Comitê Santo Dias, para pressionar pela condenação de Herculano Leonel e não deixar a história cair no esquecimento.
O PM foi condenado a seis anos de prisão em 1982, mas recorreu e o processo foi arquivado. A história de Santo Dias, não. Seu nome imortalizou-se em ruas, parques, pontes e no Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo.

Vida do operário foi traduzida em livro por Luciana Dias, Jô Azevedo e Nair Benedicto.
Em 2004, sua filha Luciana Dias, a jornalista Jô Azevedo e a fotógrafa Nair Benedicto lançaram o livro "Santo Dias - Quando o passado se transforma em História". Na obra, elas registram a biografia do líder operário e analisam o contexto do movimento sindical no final da ditadura.
Entre as dezenas de parentes e amigos que comparecem todo dia 30 de outubro à missa sobre a lápide de Santo Dias, alguns comemoram conquistas - como a liberdade que veio com a abertura política - e muitos ainda lutam por necessidades que não foram satisfeitas. "Santo morreu pensando que 28 anos depois a violência teria diminuído, acabado. Minha prece é a de que ele realize seu sonho de paz", declara Mauro de Queirós, 75, companheiro da Pastoral Operária.
Todos, contudo, reafirmam a lição que dizem ter aprendido do operário, como lembra o ex-metalúrgico Eutrópio Barbosa, de 60 anos: "Ele sempre dizia que, se um dia faltássemos, era necessário que houvesse outras pessoas para continuar nosso trabalho.". São mais de setenta, quase três décadas depois que Santo Dias se foi.

Iberê Thenório

Em 2009: Ousar Lutar, Ousar Vencer
Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo
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CEP 01016-000 São Paulo SP
Telefone 11 3106 5531
E-mail: pometropolitana@yahoo.com.br

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